quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Minha bronca pessoal com a classe médica.

Não confio cegamente em médicos. Vivo contradizendo esses profissionais. Eles aprendem praticando com cadáveres! Logo, não estão plenamente capacitados a cuidar de alguém vivo. Parecem ter uma programação mental pessimista quanto à minha saúde. Adoro quando dizem que há algo que eu não posso fazer. É praticamente uma ordem para que eu faça. E ordens são ordens... Como eu poderia confiar em pessoas que, na sua maioria, escolhem cuidar da saúde da população por conta dos altos salários e não do bem estar de seus semelhantes? Vimos recentemente nos telejornais, cenas estarrecedoras de um anestesista do Hospital das Clínicas de São Paulo abusando sexualmente de uma paciente sedada. A anestesia que deveria servir para proteger a paciente, protegeu o autor de um estupro. Um crime, uma vergonha. Mas o problema está na estrutura da carreira. O ingresso na medicina deveria ser uma prova de abnegação, de amor ao próximo e essa profissão, um tipo de voluntariado para talentos. No campo prático, a área da saúde pública parece mostrar uma das poucas vitórias da ética socialista sobre os abusos cometidos no capitalismo. Como é possível haver empresas que fazem remédios com o intuito de lucrar? Todo remédio deveria ser fornecido pelo Estado! Para quê, afinal, haver um Estado se não para garantir as condições de vida e segurança da nação? A meu ver, o maior pré-requisito para o estudo da medicina deveria ser a solidariedade para com o próximo, o altruísmo, a total falta de ambição financeira. E os medicamentos deveriam ser gratuitos, todos. Enriquecer vendendo caro aquilo que só vai salvar a vida de quem tem dinheiro para comprar é uma vergonha, uma prova do atraso moral da humanidade. Não vejo por aí ninguém se incomodando com isso, mas a mim incomoda, e muito.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Que acabe em 2012



Que o mundo acabe em 2012. Talvez seja isso o que alguns pensem. Antes de Copa, antes de Olimpíadas no Brasil. Eu prefiro que não acabe. E vou perder a chance de assitir a dois grandes circos? O primeiro, a Copa. O metrô vai chegar até meu bairro, que nem estádio tem, para que nós, paulistanos, que nem gente somos, possamos ir aos estádios com conforto e dignidade. Aí eu me lembro da Estação Brás do Metrô, num dia de semana qualquer, 8h30 da manhã. Eu tentava ir ao centro. Perdi 5 trens, número que me possibilitou chegar à beira da plataforma, absurdamente lotada. Chegara minha vez. Funcionários-empurradores esperavam próximo às portas para "ajudarem" durante o embarque. Quando as portas do trem se abriram, fui levada à força para dentro por uma massa que, além de empurrar violentamente, batia também, talvez como forma de extravasar sua raiva. Imagino grávidas, idosos, crianças passando todos os dias por isso obrigatoriamente, sem alternativa alguma de transporte. Acostumam-se. E talvez batam também, por ser talvez sua única válvula de escape.

Mas não podemos deixar a cidade com seus contados quilômetros de um metrô ultrapassado sem melhorias para a Copa. Afinal, também há o gringo, que é mais gente do que nós, paulistanos, e não pode passar por isso. Não passará: é bem provável que se desloque de táxi. Os investimentos ficarão para a cidade? Sim, oh, que bondade a deles, deixarem as sobras para nós. Porque não somos nós os primeiros beneficiados. Aliás, não fomos: há trinta anos que tudo isso deveria ter ficado pronto.

E durante a Copa, trataremos os gringos como reis, falando a língua deles, oferecendo o nosso melhor - do qual não usufruímos. A emoção estará no ar, ninguém trabalhará, todos vibrarão, tudo fechará, a Globo nos oferecerá a melhor cobertura e nos convencerá de que somos uma grande nação, de um povo guerreiro, que luta nos gramados contra os inimigos, defendendo sua camisa. Em cada chuteira de cada jogador estará nosso coração, como talvez filosofe Pedro Bial. Junto com cada milionário jogador, de cujo salário não vemos nem o bom jogo de futebol para honrá-lo. E voltaremos depois às nossas rotinas.

Segundo circo, Olimpíadas. Previsão de investimento de 25 bilhões de reais, os quais, é claro, serão ultrapassados (umas três vezes, eu diria). Rio, cenário de novelas, com suas belas praias e sua polícia corrupta, com seus morros de meninos-bandidos, pobreza e balas perdidas. O que farão? Um novo vídeo não será o suficiente para que não se enxergue os problemas sérios da cidade. Talvez um acordo possa ser feito entre os traficantes e as autoridades, para que tudo transcorra em paz. Delírio meu? Talvez. Mas é por isso que eu não quero que acabe em 2012. Quero saber dos detalhes sórdidos, quero ver as máscaras que usarão, quero ver o povo embarcando em comemorações televisivas, quero ver gente ganhando muito e muitos levando nada.

O esporte? Ah, o espírito esportivo é bacana, e ficarei feliz no dia em que ele for o que realmente importa.

Karina

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Os brasileiros não merecem

Muito se tem falado sobre as olimpíadas e a copa do mundo no Brasil. Extremamente irritante a conversa acerca das reformas estruturais necessárias a abrigar tais eventos em nosso país. Políticos propagam aos quatro ventos a oportunidade de desenvolvimento que isso representa para a nação, afinal todo o mundo voltará os olhos para este quadrante abençoado por Deus e esquecido pelo bom senso.

Trens interligando os aeroportos, estádios mais modernos, metrô chegando próximo aos estádios, estacionamentos, novas linhas de ônibus em corredores exclusivos, monotrilhos, ciclovias, acessos aos deficientes, aulas de inglês e outros idiomas para alunos da rede pública, incrementos no setor comercial.

Irritante, senão, enojante. Por que? Simples. Porque nós brasileiros não merecemos. Até hoje não merecemos qualquer facilidade para chegar aos aeroportos, nos cafundós do Judas ou de lá voltar em segurança e com rapidez. Vivemos acomodados com a demora, a distância, o abuso nos preços dos estacionamentos, com suas vagas escassas. Se é para agradar aos estrangeiros, boa parte deles nossos colonizadores históricos, outros, nossos colonizadores culturais, tudo bem...

Que eles não paguem o mico de passar pelas mesmas agruras que nós brasileiros passamos até hoje, nos superlotados e sucateados trens da CPTM. Que eles não passem o desgosto de tomar nossos desconfortáveis e saturados ônibus urbanos, guiados por aborígenes grosseiros que mal dominam a língua do país, muito menos as línguas estrangeiras. Que não sejam ludibriados em filas gigantescas em estádios distantes, que não tem sequer um banheiro decente, uma cadeira marcada ou, no mínimo, a garantia da própria segurança, enquanto seus carros são guardados por flanelinhas, "nóias" e larápios de toda sorte. Nós podemos conviver com isso. Nunca exigimos a solução.

Nós, brasileiros colonizados, merecemos o transporte tosco, lento, lotado, sendo xingados por cobradores e motoristas com o QI de uma ostra e o salário de um chimpanzé. Nunca fizemos por merecer a modernização. Somos passivos. Pacatos. Bobocas, até. Mas, é claro que os eventos internacionais merecem intervenções urgentes, afinal, os estrangeiros, que vem lá do “primeiro mundo”, denominação estapafúrdia, que aceitamos placidamente, ah, esses não toleram o mesmo lixo que nós toleramos. Então, quem sabe, com a vinda deles, para esses super eventos, ocorrerão as reformas que tanto queremos e nós, um povo pacífico, pacato, bundão mesmo... ficaremos com as migalhas, como sempre.

weber

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Conteúdo ecológico.

COP15 em 2009? Protocolo de Kyoto (em 1997) ? Desde quando já conhecemos a problemática do efeito estufa, que os EUA ainda fazem questão de enrolar para admitir? Desde quando conhecemos o problema da poluição derivada da queima de combustíveis fósseis, com suas impurezas de enxofre, a elevar literalmente às nuvens os sulfatos e sulfetos que formam a chuva ácida? Eco 92, no RJ?

Antes, bem antes...

Segue um texto antigo que apresentei num trabalho de escola, em 1989, avacalhando com a literatura oficial da Fuvest e aproveitando para disparar contra a inércia do governo no assunto da poluição, desmatamento e (péssimo) controle de natalidade, entre outros.

"Aos Indianistas"
(weber, 07/89)

Arapongas de canto triste!
Taturanas do meu jardim!
Ao Brasil veio um pingüim
que não gostou muito de alpiste.

Bravas tribos do Xingu!
Ananás adocicado
Ou abacaxi caramelado ?
É tudo índio de olho azul!

Seriemas de Guimarães!
Capivaras dos Matagais!
Parecem mulheres do cais
Sem querer, virando mães.

Alegria da bicharada,
Coitos mil, primaveris,
As mamães são imbecis
aumentando a ninhada...

É tanta boca aberta
esperando minhoca

Tuiuiús não-sei-de-onde !
Sabiá desmiolado
Cantou no pé errado,
O português perdeu o bonde.

Belos rios da minha terra,
Onde peixes naufragaram
E todas as árvores que tombaram
Desnudando a linda serra.

Eu nasci no Ipiranga
Eu conheço as margens plácidas
Hoje em dia elas são fétidas
E não há nenhum pé de manga.

Eu não agüento o ufanismo
Desse povo desatento
Quem não tem conhecimento
Apega-se ao narcisismo

Que alegria é jogar bola
Que contagiante o carnaval
Enquanto a gente se dá mal
O governo nos enrola

Que país continental!
Que enorme a nossa área
Que não tem Reforma Agrária
Que gestão débil-mental!

Que bonito é o sertão,
Que potência é o sudeste
Onde todo cabra-da-peste
Vem cheirar poluição!

Lindo céu tão azulado
Lindo céu desprotegido
Lindo céu tão poluído
Lindo céu carbonizado

Despenca do lindo céu...
Chuva...
ácida!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A sociedade brasileira está doente

Já faz 25 anos desde o fim do regime militar mais de 30 desde o período mais negro da nossa história, quando o simples ato de conversar poderia ser perigoso. A juventude que ora passa no vestibular, ou tão-somente se inscreve numa faculdade sem concorrência, já não sabe o que significou a período em que não havia a garantia dos direitos individuais. Reuniões públicas não programadas eram consideradas atos subversivos. Pensar diferente era arriscado. Questionar as instituições, fora de questão. E o que fizemos com essa liberdade, conquistada com o sangue de muitos? Afundamo-nos no torpor da mesmice. Elegemos acéfalos para nos guiar e não fizemos questão de derrubá-los quando locupletaram-se em conluios para nos roubar. Reelegemos alguns, até. Mantivemos a falsa moral, entretanto. Julga a maioria dos brasileiros viver numa democracia. Concordo que não seja tecnicamente uma autocracia, mas estamos, de fato, longe de ser uma terra democrática no tocante às nossas potencialidades... Nós, os que cometemos a imprudência de pensar, vivemos em verdade numa ditadura: a ditadura da maioria. Essa esmagadora maioria, atolada no lamaçal da hipocrisia e da falsa moral. Essa maioria estúpida que teoricamente repele a corrupção, mas confirma em pesquisa pública que praticaria os mesmos atos corruptos se ocupasse cargos públicos, desde que no interesse da própria família. Essa maioria nociva, que vende o voto à troca de programas assistencialistas retrógrados. Essa maioria sociologicamente dependente de uma secular muleta religiosa que lhe dita os padrões morais de comportamento, vestimenta e conduta.

Vivemos no mundo da moral infectada por preconceitos religiosos, mormente católicos. Sexo só depois do casamento. Planejamento familiar, nem pensar. Aborto em caso de estupro é punido com excomunhão ao mesmo tempo em que ao estuprador basta rezar uma ladainha de arrependimento, mesma "punição" aplicada aos sacerdotes pedófilos, aos quais o rigor da lei parece não atingir. Mulheres em trajes sumários serão vistas como prostitutas, e prostitutas serão vistas como a escória. E esses que julgam, rotulam e perseguem, em nome da moral e dos bons costumes, são os mesmos que à noite se entregam ao prazer remunerado em casas voltadas ao sexo profissional, desde que discreta ou sigilosamente. Os que à luz do dia atiram pedras às mulheres em trajes sumários, no aconchego anônimo da internet refestelam-se com as confissões de Bruna Surfistinha.

E assim, a nação de clima tropical que durante 4 dias por ano louva os atributos da nudez na avenida, não pode tolerar uma universitária em trajes mais sensuais. O triste espetáculo de fascismo que assistimos em rede nacional, por conta do episódio de violência gratuita praticada contra a aluna Geisy Arruda é um claro sintoma de que a sociedade brasileira padece de uma séria doença: uma forte tendência a um tipo de totalitarismo. Aos que não pensam por conta própria é conveniente uma mão firme, que tudo disciplina, que tudo pune, que tenha regras simples e iguale qualquer pária social a um cientista, desde que em proveito de um Estado "forte". Geisy não dirigiu ofensas a ninguém. Não desrespeitou qualquer código de vestimenta de sua universidade, não estava sequer usando decotes. Mas o seu vestido, arbitrariamente considerado impróprio, e possivelmente sua postura de mulher atraente foram o suficiente para provocar a ira de alguns, a frivolidade de outros e a estupidez de muitos.


Esperamos, céticos, que a própria Geisy perceba a oportunidade que tem para conquistar o respeito que lhe foi negado. Geisy deve agora respeitar, por sua vez, a conquista de mulheres que foram mortas por buscarem o direito de igualdade num mundo machista. Provar que a discriminação que sofreu foi descabida, desumana e injusta. Tememos, entretanto, que a massificação da subcultura atual tenha já ocasionado danos irreversíveis à própria vítima. Acreditamos, em nossa modesta opinião, que ela será seduzida pelo dinheiro fácil das revistas especializadas em reduzir mulheres a um corpo de desejo lascivo, uma mulher sem qualquer conteúdo. E, se assim ocorrer, lamentavelmente, ela estará alimentando o mesmo sistema canalha que a vitimara. Oxalá, estejamos errados quanto ao desfecho desse episódio específico. Fica, entretanto, a clara impressão de que a nossa sociedade está gravemente enferma.
weber

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Geyse e a hipocrisia brasileira

Nos últimos dias, tem-se discutido na mídia o polêmico caso da aluna da Uniban, Geyse Arruda, que foi atacada por seus colegas de faculdade ao tentar assistir às aulas usando um vestido considerado curto demais. Geyse só pôde sair do campus escoltada pela polícia. A faculdade abriu uma sindicância interna e chegou até a expulsar a aluna, voltando atrás, em seguida, na sua decisão.
A pergunta mais ouvida é: quem teria razão? A aluna, ao escolher a roupa que bem entendesse ou a faculdade, tentando preservar o ambiente escolar? Cabe aqui analisar alguns fatores.
Em primeiro lugar, precisamos caracterizar o que seria o atentado à moral e ao pudor. Num país onde se lutou pela prática do top less nas praias cariocas há 10 anos, onde há 15 anos dançava-se em todos os lugares sobre bocais de garrafa e há 30 anos biquínis fio dental revolucionaram as praias, como definir que roupa pode ser moral ou imoral? Cultua-se “mulheres-fruta”, que se exibem à exaustão em programas de TV, em qualquer horário, com trajes mínimos, poses e danças sensuais. Reality Shows exibem todo o tipo de momentos íntimos de uma pessoa, e são assistidos, inclusive, por crianças. O carnaval apresenta desfiles nos quais, quanto menos roupa, melhor. E como Geyse vem a ser atacada, quase apedrejada, se ela mesma é também um fruto dessa cultura do Brasil? A hipocrisia, a histeria coletiva, e por que não, a desculpa para não assistir a uma aula permearam o episódio lamentável ocorrido na Uniban.
E a postura da faculdade? Seria sua obrigação, na área do campus, zelar pela segurança de seus alunos. Numa seqüência de erros, várias atitudes equivocadas foram tomadas, como sugerir que a aluna fosse embora sozinha ou um dos seguranças ser designado para dar um sermão à garota num momento tão impróprio. A seguir, pune-se a vítima, não seus algozes, num equívoco digno de envergonhar os professores de Direito da instituição, que se talvez fossem consultados, opinariam contra tal arbitrariedade. A expulsão de Geyse elevou a proporções internacionais o alarde da hipocrisia presente em cada conduta adotada.
Teria Geyse errado? Não num país com uma cultura como a nossa. A confusão talvez pudesse ser evitada se a faculdade impusesse normas sobre as roupas permitidas para se assistir às aulas, o que também não foi feito. Nada justifica a agressão sofrida pela aluna, nem mesmo um comportamento provocativo. O episódio serve para que retomemos discussões acerca de nossa cultura, acerca da hipocrisia reinante e acerca da aplicação de nossas leis, já que a vítima passou a ser a ré numa instituição cujo o objetivo deveria ser educar a sociedade, e não fornecer péssimos exemplos de julgamentos inadequados e intolerância.