terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A sociedade brasileira está doente

Já faz 25 anos desde o fim do regime militar mais de 30 desde o período mais negro da nossa história, quando o simples ato de conversar poderia ser perigoso. A juventude que ora passa no vestibular, ou tão-somente se inscreve numa faculdade sem concorrência, já não sabe o que significou a período em que não havia a garantia dos direitos individuais. Reuniões públicas não programadas eram consideradas atos subversivos. Pensar diferente era arriscado. Questionar as instituições, fora de questão. E o que fizemos com essa liberdade, conquistada com o sangue de muitos? Afundamo-nos no torpor da mesmice. Elegemos acéfalos para nos guiar e não fizemos questão de derrubá-los quando locupletaram-se em conluios para nos roubar. Reelegemos alguns, até. Mantivemos a falsa moral, entretanto. Julga a maioria dos brasileiros viver numa democracia. Concordo que não seja tecnicamente uma autocracia, mas estamos, de fato, longe de ser uma terra democrática no tocante às nossas potencialidades... Nós, os que cometemos a imprudência de pensar, vivemos em verdade numa ditadura: a ditadura da maioria. Essa esmagadora maioria, atolada no lamaçal da hipocrisia e da falsa moral. Essa maioria estúpida que teoricamente repele a corrupção, mas confirma em pesquisa pública que praticaria os mesmos atos corruptos se ocupasse cargos públicos, desde que no interesse da própria família. Essa maioria nociva, que vende o voto à troca de programas assistencialistas retrógrados. Essa maioria sociologicamente dependente de uma secular muleta religiosa que lhe dita os padrões morais de comportamento, vestimenta e conduta.

Vivemos no mundo da moral infectada por preconceitos religiosos, mormente católicos. Sexo só depois do casamento. Planejamento familiar, nem pensar. Aborto em caso de estupro é punido com excomunhão ao mesmo tempo em que ao estuprador basta rezar uma ladainha de arrependimento, mesma "punição" aplicada aos sacerdotes pedófilos, aos quais o rigor da lei parece não atingir. Mulheres em trajes sumários serão vistas como prostitutas, e prostitutas serão vistas como a escória. E esses que julgam, rotulam e perseguem, em nome da moral e dos bons costumes, são os mesmos que à noite se entregam ao prazer remunerado em casas voltadas ao sexo profissional, desde que discreta ou sigilosamente. Os que à luz do dia atiram pedras às mulheres em trajes sumários, no aconchego anônimo da internet refestelam-se com as confissões de Bruna Surfistinha.

E assim, a nação de clima tropical que durante 4 dias por ano louva os atributos da nudez na avenida, não pode tolerar uma universitária em trajes mais sensuais. O triste espetáculo de fascismo que assistimos em rede nacional, por conta do episódio de violência gratuita praticada contra a aluna Geisy Arruda é um claro sintoma de que a sociedade brasileira padece de uma séria doença: uma forte tendência a um tipo de totalitarismo. Aos que não pensam por conta própria é conveniente uma mão firme, que tudo disciplina, que tudo pune, que tenha regras simples e iguale qualquer pária social a um cientista, desde que em proveito de um Estado "forte". Geisy não dirigiu ofensas a ninguém. Não desrespeitou qualquer código de vestimenta de sua universidade, não estava sequer usando decotes. Mas o seu vestido, arbitrariamente considerado impróprio, e possivelmente sua postura de mulher atraente foram o suficiente para provocar a ira de alguns, a frivolidade de outros e a estupidez de muitos.


Esperamos, céticos, que a própria Geisy perceba a oportunidade que tem para conquistar o respeito que lhe foi negado. Geisy deve agora respeitar, por sua vez, a conquista de mulheres que foram mortas por buscarem o direito de igualdade num mundo machista. Provar que a discriminação que sofreu foi descabida, desumana e injusta. Tememos, entretanto, que a massificação da subcultura atual tenha já ocasionado danos irreversíveis à própria vítima. Acreditamos, em nossa modesta opinião, que ela será seduzida pelo dinheiro fácil das revistas especializadas em reduzir mulheres a um corpo de desejo lascivo, uma mulher sem qualquer conteúdo. E, se assim ocorrer, lamentavelmente, ela estará alimentando o mesmo sistema canalha que a vitimara. Oxalá, estejamos errados quanto ao desfecho desse episódio específico. Fica, entretanto, a clara impressão de que a nossa sociedade está gravemente enferma.
weber

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