Mas não podemos deixar a cidade com seus contados quilômetros de um metrô ultrapassado sem melhorias para a Copa. Afinal, também há o gringo, que é mais gente do que nós, paulistanos, e não pode passar por isso. Não passará: é bem provável que se desloque de táxi. Os investimentos ficarão para a cidade? Sim, oh, que bondade a deles, deixarem as sobras para nós. Porque não somos nós os primeiros beneficiados. Aliás, não fomos: há trinta anos que tudo isso deveria ter ficado pronto.
E durante a Copa, trataremos os gringos como reis, falando a língua deles, oferecendo o nosso melhor - do qual não usufruímos. A emoção estará no ar, ninguém trabalhará, todos vibrarão, tudo fechará, a Globo nos oferecerá a melhor cobertura e nos convencerá de que somos uma grande nação, de um povo guerreiro, que luta nos gramados contra os inimigos, defendendo sua camisa. Em cada chuteira de cada jogador estará nosso coração, como talvez filosofe Pedro Bial. Junto com cada milionário jogador, de cujo salário não vemos nem o bom jogo de futebol para honrá-lo. E voltaremos depois às nossas rotinas.
Segundo circo, Olimpíadas. Previsão de investimento de 25 bilhões de reais, os quais, é claro, serão ultrapassados (umas três vezes, eu diria). Rio, cenário de novelas, com suas belas praias e sua polícia corrupta, com seus morros de meninos-bandidos, pobreza e balas perdidas. O que farão? Um novo vídeo não será o suficiente para que não se enxergue os problemas sérios da cidade. Talvez um acordo possa ser feito entre os traficantes e as autoridades, para que tudo transcorra em paz. Delírio meu? Talvez. Mas é por isso que eu não quero que acabe em 2012. Quero saber dos detalhes sórdidos, quero ver as máscaras que usarão, quero ver o povo embarcando em comemorações televisivas, quero ver gente ganhando muito e muitos levando nada.
O esporte? Ah, o espírito esportivo é bacana, e ficarei feliz no dia em que ele for o que realmente importa.